Blues, Beat & Beer
sexta-feira, setembro 28, 2012
  Ninfa

Fiquei meses sem mover uma linha,
fechei-me dos ruídos,
fechei-me do vento & do sol.

O homem esconde-se atrás de uma sombra,
beijando a noite escura
& lançando palavras soltas.

De um coração que bate,
a mulher é o sangue que chora o homem.
Quando teu deus tocou os olhos na terra
largou das mãos uma rosa.

Entre mares & florestas,
percorreu o segredo de uma ninfa.
A palavra que quero ouvir
nasceu do Mistério Grego.

Nereida a bater o profundo oceano,
que respira o ar dos peixes
& veste a água do mar.

Ondas rebentam nas rochas da alma.
Olhar
& toque
& cheiro.
No teu beijo
encontro morada.

Nereida, que veste a água do oceano,
eu te amo.
Manda os animais virarem homens
& terem medos da escuridão.
Manda os sapos soluçar poesias
& manda teu deus calar a noite.
 

terça-feira, maio 31, 2011
  Frase

Aprecio tanto o vinho quanto o meu corpo aprecia o álcool.
 

sábado, junho 06, 2009
  Filhos de nossa cabeça

Os filhos de nossa cabeça nos passaram a perna
o pai derrubado que tropeçou em si mesmo
primeiro eles roubam seu nome
depois tiram sua vida
primeiro eles sugam seu sangue
para depois cuspir na sua cara

Nos roubaram e nos esfaquearam
esculpiram-se com nossas mentes
construíram-se com nossas palavras

nem pela palavra, nem pela vida
mas pelo tesouro de um jogo
tudo falso

 

sexta-feira, fevereiro 27, 2009
  A vitrine da alma

Quando desperta o herói de um campo de guerra escandinavo, sorri carregado por uma valquíria. Deusas-virgens criando asas em cavalos os conduzem ao Valhala e lhes oferecem festas a mando de Odin. O corpo mantém-se em barro mas seus olhos vivem a alegria da morte.

Dono da sabedoria e cinco olhos, o rei nórdico é olhos alados em forma de dois corvos. Odin espera os bravos em uma sala sem luz. Somente o brilho do ouro e lanças.

O sorriso fala todas as palavras, mas fala uma só língua. O homem entrega todos seus segredos com apenas um sorriso e, na tristeza de um amigo, o sorriso pode esconder-se atrás da língua, na garganta. Esfregando sua língua de serpente, mostra que não é um amigo.

Na solidão, a sombra sorri, zombando da tua tristeza.

O homem tortura-se pelo sorriso de uma mulher. Quando o riso dela não pertence a um único homem - chicoteia-se a mente. E o sorriso que a mulher dá hoje, amanhã será mostrado a um homem que não seguiu teu caminho. Lembrando-se e imaginando que o sorriso de hoje, um dia pertenceu a outro homem - chicoteia-se a mente.

No sexo, a pupila sorri.

O tolo que ri de si mesmo, um dia chorará na sua morte. O perfeito vai rir de suas asas cortadas. Quem deixa os corvos girar a risos seu ninho, chorará a própria morte e a morte dos corvos

A promessa guarda-se no sorriso, tornando-se a vitrina da alma.

 

sábado, setembro 13, 2008
  Das cinzas nada surge


Das cinzas nada surge
olhos cerrados neste segundo ato
olhos fechados e céus ensangüentados
estou só por você de novo
se a vida é um palco
meu mundo é um monólogo

Como uma noite calma
o vento aguarda o final da estação
como uma noite gentil
as memórias aguardam a ultima decisão
se a vida é um palco
meu mundo é um monólogo

Asfaltadas estradas cruzam túneis de árvores de flores
entre viagens e revoltas de um subúrbio de vida
a morte mostra seu sorriso
terra dos sonhos em chamas

Eu sei onde vai o bravo guerreiro
cavalga nos braços de sua Valquíria
deusa-virgem o conduz até o grande banquete
feliz daquele que escapa de todo esse sangue e sujeira

Encontrarei meus amigos nas costas deste cavalo branco

 

terça-feira, junho 06, 2006
  El Cobarde

Passei a noite de meus quarenta anos sozinho em um quarto escuro. Ouvia o som do motor dos carros que passavam e o ruído do neon que piscava para alertar que ainda haviam vagas no hotel. As luzes dos faróis dos carros iluminavam o crucifixo da parede num intervalo quase sincronizado.

Eu estava deitado na cama. Olhava para o teto do quarto. Pensava nas coisas que eu havia feito. Naquele dia eu não fui trabalhar. Não passei nem perto. Nem mesmo fui na direção da empresa. Fui até uma revendedora de carros usados. Deixei o meu carro e sai com um Mustang 1972. Meu carro valia muito mais que aqueles 4.000 que o cara queria pelo Mustang. No mínimo o dobro. 'Te dou o Mustang e mais 500', disse o vendedor. Eu aceitei. Para mim era o suficiente.

Passei o resto do dia rodando com o Mustang. Passei por várias cidades que eu não conhecia. Parei somente para almoçar em um restaurante de beira de estrada. A comida era horrível e o restaurante tinha um aspecto repugnante, mas isso não importava mais. Eu já estava a 700km de distância da cidade em que morava, quando parei pela segunda vez. Bem-vindo a El Cajon, dizia a placa na entrada da cidade. Peguei um quarto em um hotel qualquer. Fiquei somente cinco minutos e sai para rodar mais um pouco. Entrei na primeira loja de armas que encontrei e saí com uma Webley .455. Voltei para o hotel e fiquei lá deitado na cama durante horas.

Agora eu tinha tudo o que precisava. Tudo o que eu fiz seria recompensado. Todos os anos em que simplesmente seguia ordens acabaram. Todos iriam pagar. Não cruzem na minha frente, ou vocês serão massacrados. Fui amestrado desde minha infância. Aprendi a obedecer. Primeiro na escola, depois no trabalho. Eu sempre soube que estava sendo explorado por todos. Meus colegas de trabalho e mesmo meus amigos. Sempre jogavam sujo. Chantagens e insultos eram comuns para conseguirem o que queriam. Eu sempre aceitei tudo isso. Fingia que era tudo normal. Eu dava um riso amarelo e saía. O ser humano é cruel. Todas as pessoas são, e vão pagar. Não cruzem o meu caminho, ou vou descarregar a minha arma no peito do desgraçado. Todos esses anos serão vingados.

A hora chegou. Dei algumas voltas com o Mustang e parei em um bar de uma rua escura. Entrei com a arma na mão e coloquei a arma deitada no balcão. 'Me dá algo para beber', eu disse ao garçom. Ele serviu wilskey. 'Cuidado com isso. Você pode fazer um grande estrago em alguêm', disse o Sr. do outro lado do balcão. Tomei de um só gole e fiz um sinal para o cara encher de novo. Uma mulher que estava no banco ao lado se levantou para sair. 'Não tente sair daqui ou vou estrear a noite com você', disse a ela com uma certa raiva. Ela voltou num movimento devagar para o lugar e ficou de cabeça baixa olhando para o balcão. 'Acho melhor você ir embora, a policia já foi avisada', disse o cara do balcão ao encher o copo. Eu virei o copo e fique de frente para porta, mas encostado no balcão. Levantei a arma em direção das pessoas. Todas ficaram com medo, mas nenhuma tentou correr. A primeira que tentasse isso não chegaria até a porta. Eu puxei o gatilho três vezes. Uma bala para cada direção. No terceiro tiro eu vi um vulto no fundo do bar cair. Saí correndo do bar em direção do carro.

Continuei pouco tempo rodando antes que a polícia me localizasse. Comecei a acelerar. O número de carros de polícia me seguindo começava a aumentar. Em cinco minutos eram seis ou sete carros. Peguei a estrada em direção das montanhas. As curvas não tinham fim. Cada vez mais fechadas e difíceis. A polícia continuava atrás. Eu não enxergava, mas ouvia o som das sirenes. Cheguei no alto onde havia uma planície. De um lado a estrada descia de volta para a cidade. Do outro lado, um penhasco. A polícia me seguia. Eu coloquei o Mustang em direção do penhasco e parei. Os policiais pararam pouco atrás, a 500 metros.

Agora eu já não tinha mais saída. Os policiais estavam todos alinhados. Um deles gritava para eu sair com as mãos para cima. Eu podia me entregar ou me jogar com o Mustang no penhasco. Eles não me perdoariam. Simplesmente entrei em um bar e puxei o gatilho três vezes. Matei um cara.

Eu não podia fraquejar agora. Eles pagaram pelo que fizeram. Eu deveria ter descarregado a arma. Eu deixei de ser um covarde. Está tudo vingado. Eu poderia me atirar pelo penhasco e estaria tudo como deveria ter sido desde o início. Nada poderia me deter. Não me pegariam nunca. Nunca desistiria. Estava decidido.

Foi quando fraquejei e tudo voltou como era antes. Desliguei o carro. Saí do mustang com as mãos para cima. Toquei o capô do carro e esperei que os policiais viessem me algemar.
 

domingo, abril 16, 2006
  Sílvia e Carlão

Sílvia tinha deixado seus pais há alguns meses para morar sozinha em um apartamento na cidade baixa. Era um apartamento pequeno, mas tinha tudo o que Sílvia precisava. Na verdade foi o único apartamento que ela podia pagar. Mas Sílvia não era muito exigente com isso. Ela estava em um bairro excelente para uma jovem de 23 anos e isso bastava.

Sílvia era uma mulher muito bonita. Ela tinha cabelos e olhos castanhos e passava o ano todo bronzeada. Ela não era alta nem baixa mas era magra e tinha seios pequenos e bonitos e bunda proporcional com seu corpo. Aos olhos de Sílvia, seu corpo poderia ser mais atraente. Peitos maiores e mais durinhos. Bunda mais redondinha. Barriga mais retinha. Isso e outras pequenas imperfeições que só Sílvia notava ao se olhar no espelho no início de cada manhã.

Para Carlão, Sílvia era perfeita assim como ela era, sem tirar ou colocar nada. Carlão era namorado de Sílvia e morava com seus irmãos, apesar de passar a maior parte do tempo no apartamento dela. Carlão tinha 31 anos e tocava gaita de boca numa banda de blues. A banda costumava se apresentar todas as quintas em um bar da cidade, mas o dinheiro não era muito ele já pensava em achar alguma coisa para fazer durante o dia. Mesmo ele passando todo o tempo na casa de Sílvia, a única coisa que ele colocava no apartamento era a cerveja na geladeira. Isso por que era ele que bebia tudo.

No fim de uma tarde, Carlão saiu do ensaio e passou com sua moto no trabalho de Sílvia para dar uma carona até seu apartamento. Quando chegaram, eles começaram a se beijar no elevador e, ao fechar a porta do apartamento, o clima esquentou ainda mais. Eles continuaram no sofá da sala. Sílvia tirou a calça de Carlão e Ele começou a abrir os botões da camisa de Sílvia. Ela tirou a saia e, só de calcinha foi até o quarto puxando Carlão pela mão. Eles deitaram na cama e Carlão começou a beijar sua boca, seu pescoço e foi descendo e beijando seus seios. Ele continuou descendo até a barriga enquanto Sílvia abriu a gaveta para pegar o preservativo. Carlão estava na altura da cintura quando Sílvia dá um grito e interrompe Carlão, com um empurrão nos ombros.


- Carlos, não tem mais camisinha.
- Ah não.. Mas por que você não viu isso antes.
- Eu esqueci Carlão.
- Mas não tem problema, podemos continuar assim mesmo, diz Carlão voltando para a cama sem querer perder muito tempo com a situação.
- Tem problema sim, Carlão. Vai até a farmácia da esquina, é rapidinho.


Carlão sabia que não adiantava discutir. Então ele colocou as calças e a camisa, calçou os sapatos e saiu a pé até a farmácia. Sílvia ficou deitada na cama, esperando a volta de Carlão.

Haviam passado quinze minutos quando Sílvia olhou para o relógio e começou a pensar o que o inútil do Carlão estava aprontando. Afinal de contas, a farmácia era na esquina. Cinco minutos eram suficientes para ir e voltar. Talvez dez. Quinze já eram demais. Talvez ele tenha ficado numa fila grande ou na sua frente estava uma velhinha que começou a contar sobre seus netinhos, mostrando as fotos de todos eles e dizendo: "Essa é minha netinha número três. Ela nasceu de dois quilos e oitocentos e blá blá blá...".

Foi nesse instante que Sílvia ouviu a sirene de uma ambulância e correu para a janela. A ambulância parou em frente à farmácia e Carlão estava esticado na rua próximo a calçada, rodeado de pessoas. Ela vestiu a roupa e desceu as escadas mais rápido que nunca. Atravessou a rua correndo e chegou na multidão que assistia os enfermeiros trabalhando. Sílvia não agüentou a situação e antes mesmo de chegar próximo a Carlão começou a chorar e gritar pelo seu nome. Pessoas preocupadas com a aflição de Sílvia a seguraram para não deixá-la ver o amado que estava esticado no asfalto próximo a calçada. Sílvia chorava cada vez mais desesperada. Ela não conseguia se aproximar de Carlão e isso a deixava ainda mais agoniada.

Toda a multidão se sensibiliza com a emoção de Sílvia e tentavam acalmá-la dizendo que Carlão estava bem. Um enfermeiro que atendia o acidentado virou para Sílvia e disse que Carlão estava sendo levado ao hospital para fazer alguns exames de rotina mas logo poderia voltar para casa. Foi quando o acidentado diz com uma voz fraca e cheia de dor:


- Quem disse que eu me chamo Carlão. Meu nome é João. Que merda...


O silêncio toma conta da multidão. Sílvia para de chorar no mesmo instante. Todos ficam olhando paralisados para Sílvia. Mesmo os dois enfermeiros param o atendimento por alguns instantes para ver a reação de Sílvia. Mas ela não sabe como agir. Somente nesse momento Sílvia consegue ver o rosto do rapaz acidentado. A expressão de desespero é tomada pelo sentimento de vergonha. Ela começa a se afastar e vê a farmácia fechada.

Do outro lado da rua Carlão enxerga Sílvia e corre para ver o que estava acontecendo.


- O que houve Sílvia? Tudo bem contigo? Por que esta chorando? Conhece o acidentado? A farmácia estava fechada e tive que ir até a outra...


Sílvia e Carlão voltaram até o Apartamento. Sílvia precisava de um momento para se acalmar abraçada em Carlão. Eles entraram no elevador. Se beijaram e começaram o que tinham parado.
 

terça-feira, março 21, 2006
  O Bispo

A carroça do bispo se movia lentamente puxada pela mula velha. O silêncio da madrugada só era quebrado pelo barulho de madeira rangendo e das rodas da carroça se movendo sobre o cascalho do caminho. O bispo obeso deixava a vila no meio da noite. A carta marcada com o brasão da Ordem das Chaves Cruzadas não deixava opção ao bispo. Antes do amanhecer, ele deveria se unir a um cavaleiro e dois peões a noroeste da vila. O inimigo avançava e a presença de um religioso na frente de batalha era imprescindível.

Antes do crepúsculo, o bispo encontra o cavaleiro no meio do caminho. O guerreiro recuava numa tentativa de formar um novo ataque. "A Ordem das Chaves Cruzadas me envia de volta ao reino", era o que dizia o cavaleiro abatido em direção contrária.

- Pegue um pouco de pão e uma garrafa de vinho e siga teu caminho, diz o bispo.

O cavaleiro pega com um rápido golpe a comida e parte sem perda de tempo em direção ao reinado. Em contrapartida, o bispo segue seu caminho como ordenado. Agitando as rédeas para acelerar a mula velha, ele tentava reduzir o tempo de viagem. A esperança dos guerreiros no campo de batalha era o calvário da mula cansada.

Ao avistar o bispo, o peão corre em direção da carroça. Puxando as calças que caíam a cada passo, o bufão se joga ao pés do religioso, lamentando o resultado da última batalha, desastrosa e cheia de baixas.

- Que bo-bom que o se-senhor está aqui, meu bi-bispo, dizia o peão gago. Ti-ti-tivemos pe-perdas e te-tenho muito medo.

O guerreiro conta sobre a batalha que vem de acontecer. Ele descreve com detalhes a tentativa de ataque à rainha inimiga. O ataque tinha sido um desastre incrível. Várias mortes desnecessárias somente pelo nome da Ordem. Um verdadeiro massacre. A tristeza é ainda mais visível quando ele revela a morte de um amigo de infância esmagado por uma das torres do castelo. O bispo que havia saído do reino para amparar um cavaleiro e dois peões agora encontrava um único membro. Um peão baixinho, gago e medroso no meio do campo de batalha.

- Acalme-se meu filho, diz o bispo. Deus está conosco. Ele nos protegerá e nos ajudará a avançar. Para isso, basta que sejamos pacientes e sigamos Seus ensinamentos. O Senhor está do nosso lado e, em Seu nome, venceremos esta guerra contra nossos inimigos.
- Ma-mas meu bi-bispo, continuava o pequeno guerreiro. Porquê de-devemos comba-bater se nós nem me-mesmo conhecemos no-nosso inimi-migo? Em to-toda minha vi-vida, eu não lembro de ter fe-feito outra co-coisa senão lu-lutar. Já de-derruba-bamos vários Reis e pe-perdemos o-outros, ma-mas esta-tamos sempre em gue-guerra.
- Não cabe a nós questionármos as decisões de Deus, e sim segui-las. A dúvida nem mesmo deve existir...
- Mas senhor, interrompe o peão. Me-mesmo no-nosso Rei se-segue a ri-risca o que a Ordem das Cha-chaves Cruzadas lhe dete-termina à fa-fazer. To-todos nós somos pe-peças neste jogo que é esta gue-guerra inú-nutil.

O ódio invade o corpo do bispo que antes se mostrava muito calmo. Os olhos do bispo se enchem de raiva e aversão as palavras do peão tolo.

- Cala-te. Não digas estas heresias ou vais passar a eternidade a queimar no inferno.
- Se-senhor, eu não acredito que sa-sairei deste jo-jogo. Quando esta gue-guerra acabar, eu serei mandado de volta ao no-nosso re-reino e uma nova gue-guerra vai co-começar. O senhor nu-nunca jogou xa-xadrez? O se-senhor não se sente uma pe-peça de xadrez? Nós so-somos todos mandados por uma enti-tidade que não co-conhecemos e seguimos a ri-risca suas o-ordens. O se-senhor nunca imaginou que essa me-mesma Ordem pode seguir as re-regras de uma outra O-Ordem. E essa outra O-Ordem de outra ainda ma-mais poderosa?
- Eu nunca ouvi tamanha besteira. Amanhã vou enviar uma carta para que tu voltes imediatamente ao reino e seja devidamente castigado.
- Não é necessário meu bi-bispo. Antes do ama-manhecer, nós estaremos em ple-plena bata-talha com o inimigo. A no-notícia chegou ao ca-campo de batalha antes me-mesmo do senhor.

O bispo não vira os olhos e continua seu caminho até a cabana onde ia descansar. Na manhã seguinte o bispo é interrompido por um mensageiro com uma nova carta da Ordem das Chaves Cruzadas. A carta dizia que o Rei tinha sido morto e ele deveria voltar ao reino. O bispo deveria retornar e aguardar novas ordens. O bispo sempre soube que um novo Rei devia estar já no poder e que ele somente aguardaria o começo de uma nova batalha, assim como todas as outras que ele havia vivenciado. Não era necessário que um peão fraco, tolo e gago lhe disse isso. Apesar disso, estava fora de questão interrogar a Ordem que ele sempre seguiu e menos ainda aceitar que outros tentassem lhe dizer que a Ordem não estava certa.
 

quinta-feira, janeiro 26, 2006
  Le Lautrec

Eu morei um ano e meio em Grenoble. Antes mesmo de sair do Brasil, eu já tinha data marcada para a volta. Passei exatamente 18 meses naquele apartamento construído logo após a segunda guerra. Quando alguém caminhava, falava ou gemia no prédio, todo mundo ouvia. Mas o pior mesmo, era a velha do andar de cima que levantava as 4 horas da manhã para molhar as plantas na janela. A cada noite a gente acompanhava a cama rangendo até a velha levantar, a velha colocando os chinelos de sola de madeira, a velha andando até o banheiro, a velha caminhando até a janela, a água descendo pela parede e batendo em nossa persiana de ferro. Por fim, a velha ia até a cama e após alguns novos rangidos, podíamos dormir por mais algumas horas.

Um lugar que me chamou a atenção quando cheguei foi o Le Lautrec. Eu passava todos os dias pelo bar e sempre havia alguma Harley parada na frente. Quando eu passava por lá, eu reduzia o passo para ouvir os roncos das motos chegando e saindo do bar. A música era muito boa também, mas da calçada não dava para ouvir muito bem. Algumas vezes o barulho não era das motos, mas das discussões que aconteciam no bar. Um dia, passando pelo bar, eu comecei a caminhar mais devagar quando um tipo gordo, cabelo e barba grisalha saiu cambaleando do bar com uma garrafa de 1664 na mão. Atrás dele veio uma cadeira voando pela porta de entrada e logo após uma mulher que gritava. A gargalhada do cara era mais alta que os gritos da mulher histérica. Eu segui meu caminho. Olhei para trás da esquina e estavam o tipo e a mulher abraçados entrando no bar novamente.

Era um bom bairro este que eu morava. Muito estudante universitário e muito velho. Nas férias os estudantes desapareciam e só restavam os velhos. Eram muitos mesmo e sempre queriam conversar. Eu não me importava de ficar algum tempo ouvindo o que eles tinham para contar. Poucas vezes eram reclamações e na maioria das vezes rendiam boas risadas.

Isso me fez lembrar meu avós. Meus avós gostavam de cultivar o que seus pais trouxeram da Itália. Mesmo velho, meu avô continuava com as plantações no pequeno terreno atrás de sua casa. Ele podia até ter abandonado o velho cigarro de palha, mas o vinho continuava presente em cada refeição. Minha avó era alta e grande. Era ela que mandava na casa. Cinco filhos ainda moravam com eles. Eu estava sempre ocupado demais para vê-los. Eles moravam longe. Eu tinha sempre algo mais importante para fazer. Mesmo que fosse ficar dormindo no domingo de manhã. Lembro do dia que eles comemoraram 50 anos de casados. Estavam todos lá. Os 10 filhos com maridos e esposas e todos os netos. Foi uma grande festa. Todos estavam lá, exceto eu. Afinal, eu tinha coisas mais interessantes a fazer. Algum tempo depois, descobriram que minha avó tinha um tumor na cabeça. Fui vê-la depois da operação. Não ouvi uma palavra sequer de sua boca. Ela ficou o tempo inteiro dormindo. Minha tia falou que dias antes ela perguntou por mim, mas naquele momento ela só dormia. Eu não acreditava que era minha avó lá naquela cama. Não podia ser. Era uma outra pessoa. Uma desconhecida. Eu voltei para minha cidade no mesmo dia. Na segunda-feira, meu pai foi sozinho ao seu enterro. Eu não queria ir até lá para ver o enterro de uma desconhecida. Três anos depois chegou a hora de meu avô. Disseram que no final de uma tarde de trabalho atrás de casa, ele sentou na sua poltrona em frente a televisão e começou a levantar os braços dizendo que estava com as mãos amortecidas. Isso algum tempo antes de chamarem a ambulância para levá-lo ao hospital por causa do ataque cardíaco. Eu fui vê-lo no hospital. Ele me olhou de lado, mas não disse nada. Não consegui ficar no quarto nem cinco minutos e ele teve mais um ataque. A enfermeira nos tirou do quarto e eu voltei a Porto Alegre no mesmo dia. No domingo eu estava de volta para seu enterro.

Tudo isso veio do nada. Semana passada, eu estava sentado à mesa jantando e simplesmente lembrei. Terminei de comer. Tomei o ultimo gole de vinho e disse que ia sair. Vesti o casaco. Calcei os sapatos e sai em direção do Le Lautrec. Atravessei a rua e andei as três quadras que separavam meu apartamento do bar. Cheguei rápido. Era lá que eu queria estar agora. Mas estava tudo escuro. Fechado. Só havia uma placa na porta: "Vende-se ou aluga-se".
 

sexta-feira, dezembro 23, 2005
  A Velha Dama de Paris

Eu imagino que Fante se sentiu, ao menos uma vez na vida, como sua personagem de Minha Primeira Viagem à Paris. Eu posso quase afirmar que, com toda a emoção e sentimento que sempre expressou em suas novelas, ele já lastimou algo, assim como aquela velha mulher. Eu tenho certeza disso. Ainda mais, Fante precisa ter tido ao menos em algum momento da sua vida, mesmo que muito brevemente, a experiência do amargo sentimento daquela mulher jogada em um cruzamento de Paris.

Pois eu já me senti assim. Da mesma forma que aquela mulher horrenda como um pesadelo, grisalha e triste como o mais forte inverno. Aquela velha como a cidade de Paris, que passava o dia como um amontoado de ossos. Abandonada como um cão velho com as horas contadas. Imóvel como a Notre Dame.

Talvez isso de alguma forma revolte as pessoas. Mesmo que seja pela impotência de não poder ajudar. Mas eu entendo a velha dama e faria a mesma coisa. Talvez alguns jogariam moedas e outros nem olhariam. Alguns pensariam em ajudar, mas no mesmo instante outra coisa mais importante lhes passaria pela cabeça.

Mas se por acaso alguma pessoa de passagem fosse parar e perguntar o que eu precisava ou simplesmente por que eu estava ali jogado como um monte de trapos velhos, eu responderia calmamente assim como a velha mulher fez: "A única coisa que eu desejo agora é ficar só, com minha dor".
 

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