Blues, Beat & Beer
terça-feira, junho 06, 2006
  El Cobarde

Passei a noite de meus quarenta anos sozinho em um quarto escuro. Ouvia o som do motor dos carros que passavam e o ruído do neon que piscava para alertar que ainda haviam vagas no hotel. As luzes dos faróis dos carros iluminavam o crucifixo da parede num intervalo quase sincronizado.

Eu estava deitado na cama. Olhava para o teto do quarto. Pensava nas coisas que eu havia feito. Naquele dia eu não fui trabalhar. Não passei nem perto. Nem mesmo fui na direção da empresa. Fui até uma revendedora de carros usados. Deixei o meu carro e sai com um Mustang 1972. Meu carro valia muito mais que aqueles 4.000 que o cara queria pelo Mustang. No mínimo o dobro. 'Te dou o Mustang e mais 500', disse o vendedor. Eu aceitei. Para mim era o suficiente.

Passei o resto do dia rodando com o Mustang. Passei por várias cidades que eu não conhecia. Parei somente para almoçar em um restaurante de beira de estrada. A comida era horrível e o restaurante tinha um aspecto repugnante, mas isso não importava mais. Eu já estava a 700km de distância da cidade em que morava, quando parei pela segunda vez. Bem-vindo a El Cajon, dizia a placa na entrada da cidade. Peguei um quarto em um hotel qualquer. Fiquei somente cinco minutos e sai para rodar mais um pouco. Entrei na primeira loja de armas que encontrei e saí com uma Webley .455. Voltei para o hotel e fiquei lá deitado na cama durante horas.

Agora eu tinha tudo o que precisava. Tudo o que eu fiz seria recompensado. Todos os anos em que simplesmente seguia ordens acabaram. Todos iriam pagar. Não cruzem na minha frente, ou vocês serão massacrados. Fui amestrado desde minha infância. Aprendi a obedecer. Primeiro na escola, depois no trabalho. Eu sempre soube que estava sendo explorado por todos. Meus colegas de trabalho e mesmo meus amigos. Sempre jogavam sujo. Chantagens e insultos eram comuns para conseguirem o que queriam. Eu sempre aceitei tudo isso. Fingia que era tudo normal. Eu dava um riso amarelo e saía. O ser humano é cruel. Todas as pessoas são, e vão pagar. Não cruzem o meu caminho, ou vou descarregar a minha arma no peito do desgraçado. Todos esses anos serão vingados.

A hora chegou. Dei algumas voltas com o Mustang e parei em um bar de uma rua escura. Entrei com a arma na mão e coloquei a arma deitada no balcão. 'Me dá algo para beber', eu disse ao garçom. Ele serviu wilskey. 'Cuidado com isso. Você pode fazer um grande estrago em alguêm', disse o Sr. do outro lado do balcão. Tomei de um só gole e fiz um sinal para o cara encher de novo. Uma mulher que estava no banco ao lado se levantou para sair. 'Não tente sair daqui ou vou estrear a noite com você', disse a ela com uma certa raiva. Ela voltou num movimento devagar para o lugar e ficou de cabeça baixa olhando para o balcão. 'Acho melhor você ir embora, a policia já foi avisada', disse o cara do balcão ao encher o copo. Eu virei o copo e fique de frente para porta, mas encostado no balcão. Levantei a arma em direção das pessoas. Todas ficaram com medo, mas nenhuma tentou correr. A primeira que tentasse isso não chegaria até a porta. Eu puxei o gatilho três vezes. Uma bala para cada direção. No terceiro tiro eu vi um vulto no fundo do bar cair. Saí correndo do bar em direção do carro.

Continuei pouco tempo rodando antes que a polícia me localizasse. Comecei a acelerar. O número de carros de polícia me seguindo começava a aumentar. Em cinco minutos eram seis ou sete carros. Peguei a estrada em direção das montanhas. As curvas não tinham fim. Cada vez mais fechadas e difíceis. A polícia continuava atrás. Eu não enxergava, mas ouvia o som das sirenes. Cheguei no alto onde havia uma planície. De um lado a estrada descia de volta para a cidade. Do outro lado, um penhasco. A polícia me seguia. Eu coloquei o Mustang em direção do penhasco e parei. Os policiais pararam pouco atrás, a 500 metros.

Agora eu já não tinha mais saída. Os policiais estavam todos alinhados. Um deles gritava para eu sair com as mãos para cima. Eu podia me entregar ou me jogar com o Mustang no penhasco. Eles não me perdoariam. Simplesmente entrei em um bar e puxei o gatilho três vezes. Matei um cara.

Eu não podia fraquejar agora. Eles pagaram pelo que fizeram. Eu deveria ter descarregado a arma. Eu deixei de ser um covarde. Está tudo vingado. Eu poderia me atirar pelo penhasco e estaria tudo como deveria ter sido desde o início. Nada poderia me deter. Não me pegariam nunca. Nunca desistiria. Estava decidido.

Foi quando fraquejei e tudo voltou como era antes. Desliguei o carro. Saí do mustang com as mãos para cima. Toquei o capô do carro e esperei que os policiais viessem me algemar.
 

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Christon Delàs
christon.delas@yahoo.com

"It comes blundering over the
Boulders at night, it stays
Frightened outside the
Range of my campfire
I go to meet it at the
Edge of the light."
Gary Snyder
(How Poetry Comes to Me)

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