Blues, Beat & Beer
segunda-feira, outubro 03, 2005
  O Possante

Quando mudamos para Porto Alegre, nós já tínhamos aquele Gol 1000 93 branco com o escapamento aberto. Era até difícil conversar dentro dele. Em viagem então, o silêncio era quebrado somente pelo ensurdecedor ronco daquele carro.

Consertar aquilo era uma possibilidade muito remota. Recebendo aquela bolsa de mestrado, trocar o silencioso era um luxo possível a poucos. Pior que mais da metade da bolsa era para pagar o aluguel de um apartamento de quarto e sala no Bom Fim. O resto já estava condenado com outras despesas. O que garantia o mês era mesmo o salário da patroa. Mesmo que muitas vezes nosso limite era mesmo o limite negativo do cheque. Tanto meu, quando dela.
A verdade é que o possante ficava mais parado que rodando, mas quando a gente inventava de sair, não sabia que tipo de surpresa poderia encontrar. Às vezes nem conseguia sair da garagem. Lembro uma vez que ao dar ré, notei algo errado com o freio. Voltei, saí do carro e vi que todo o líquido de freio tinha vazado pela roda direita traseira. O verdadeiro "poçante" mesmo.

Outras vezes, ao sair da universidade, ficava na merda devido a bateria, ou algum troço de bombear gasolina entupido. Um dia tive que chamar um chaveiro porque a minha chave ficou bloqueada na porta. Chegou um ponto que eu estava tão indignado que chamava o seguro por qualquer razão. Eu devo ter sido considerado o cliente do mês. Talvez do ano. Mas afinal, ter gasto aquela grana pelo seguro não foi em vão.

Pior ainda era a sacanagem com os amigos. Uma noite fiz dois amigos ficarem meia hora de um lado para outro no estacionamento de um supermercado, empurrando o possante para fazer funcionar. E o desgraçado não funcionou.

O limite foi quando eu estava levando o carro para fazer uma revisão na mecânica antes das férias de verão. Duas quadras antes de chegar, ele simplesmente apagou. Nenhum sinal de vida. Totalmente morto. Encostei e deixei o possante lá. Fui a pé até a mecânica e eles fizeram o resto.

Decidimos finalmente passar adiante o possante. Cancelei a garagem. Fomos para as férias e no último mês deixávamos o carro na rua. Acho que era a única rua da cidade sem flanelinha, o que ajudou um pouco. Algumas noites até deixei o carro destrancado. Pensando que a grana do seguro seria maior que o preço que a gente ia ganhar vendendo ele. Mas ele continuava sempre lá. Até que me toquei que algum mendigo poderia começar a usar o carro para dormir, e isso seria problema ainda maior.

Devem fazer quase dois anos que vendemos o possante. Desde lá, fazendo sol, chuva, neve, temporal, furacão ou tsunami, estou indo e voltando sempre de ônibus. De manhã cedo, ônibus lotado é foda. Ou no fim de semana que passa um ônibus cada 2 horas. Mesmo agora afastado de Porto por um tempo, continuo na mesma.

Mas na verdade mesmo, o cara nunca está contente. Antes era por causa do possante que me deixava sempre na mão e me fazia gastar a maior grana. Agora é por causa do ônibus. Quem sabe um dia eu consiga comprar uma Harley, mas por enquanto é um sonho bem longe de ser realizado.
 
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Christon Delàs
christon.delas@yahoo.com

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Boulders at night, it stays
Frightened outside the
Range of my campfire
I go to meet it at the
Edge of the light."
Gary Snyder
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