Blues, Beat & Beer
domingo, abril 16, 2006
  Sílvia e Carlão

Sílvia tinha deixado seus pais há alguns meses para morar sozinha em um apartamento na cidade baixa. Era um apartamento pequeno, mas tinha tudo o que Sílvia precisava. Na verdade foi o único apartamento que ela podia pagar. Mas Sílvia não era muito exigente com isso. Ela estava em um bairro excelente para uma jovem de 23 anos e isso bastava.

Sílvia era uma mulher muito bonita. Ela tinha cabelos e olhos castanhos e passava o ano todo bronzeada. Ela não era alta nem baixa mas era magra e tinha seios pequenos e bonitos e bunda proporcional com seu corpo. Aos olhos de Sílvia, seu corpo poderia ser mais atraente. Peitos maiores e mais durinhos. Bunda mais redondinha. Barriga mais retinha. Isso e outras pequenas imperfeições que só Sílvia notava ao se olhar no espelho no início de cada manhã.

Para Carlão, Sílvia era perfeita assim como ela era, sem tirar ou colocar nada. Carlão era namorado de Sílvia e morava com seus irmãos, apesar de passar a maior parte do tempo no apartamento dela. Carlão tinha 31 anos e tocava gaita de boca numa banda de blues. A banda costumava se apresentar todas as quintas em um bar da cidade, mas o dinheiro não era muito ele já pensava em achar alguma coisa para fazer durante o dia. Mesmo ele passando todo o tempo na casa de Sílvia, a única coisa que ele colocava no apartamento era a cerveja na geladeira. Isso por que era ele que bebia tudo.

No fim de uma tarde, Carlão saiu do ensaio e passou com sua moto no trabalho de Sílvia para dar uma carona até seu apartamento. Quando chegaram, eles começaram a se beijar no elevador e, ao fechar a porta do apartamento, o clima esquentou ainda mais. Eles continuaram no sofá da sala. Sílvia tirou a calça de Carlão e Ele começou a abrir os botões da camisa de Sílvia. Ela tirou a saia e, só de calcinha foi até o quarto puxando Carlão pela mão. Eles deitaram na cama e Carlão começou a beijar sua boca, seu pescoço e foi descendo e beijando seus seios. Ele continuou descendo até a barriga enquanto Sílvia abriu a gaveta para pegar o preservativo. Carlão estava na altura da cintura quando Sílvia dá um grito e interrompe Carlão, com um empurrão nos ombros.


- Carlos, não tem mais camisinha.
- Ah não.. Mas por que você não viu isso antes.
- Eu esqueci Carlão.
- Mas não tem problema, podemos continuar assim mesmo, diz Carlão voltando para a cama sem querer perder muito tempo com a situação.
- Tem problema sim, Carlão. Vai até a farmácia da esquina, é rapidinho.


Carlão sabia que não adiantava discutir. Então ele colocou as calças e a camisa, calçou os sapatos e saiu a pé até a farmácia. Sílvia ficou deitada na cama, esperando a volta de Carlão.

Haviam passado quinze minutos quando Sílvia olhou para o relógio e começou a pensar o que o inútil do Carlão estava aprontando. Afinal de contas, a farmácia era na esquina. Cinco minutos eram suficientes para ir e voltar. Talvez dez. Quinze já eram demais. Talvez ele tenha ficado numa fila grande ou na sua frente estava uma velhinha que começou a contar sobre seus netinhos, mostrando as fotos de todos eles e dizendo: "Essa é minha netinha número três. Ela nasceu de dois quilos e oitocentos e blá blá blá...".

Foi nesse instante que Sílvia ouviu a sirene de uma ambulância e correu para a janela. A ambulância parou em frente à farmácia e Carlão estava esticado na rua próximo a calçada, rodeado de pessoas. Ela vestiu a roupa e desceu as escadas mais rápido que nunca. Atravessou a rua correndo e chegou na multidão que assistia os enfermeiros trabalhando. Sílvia não agüentou a situação e antes mesmo de chegar próximo a Carlão começou a chorar e gritar pelo seu nome. Pessoas preocupadas com a aflição de Sílvia a seguraram para não deixá-la ver o amado que estava esticado no asfalto próximo a calçada. Sílvia chorava cada vez mais desesperada. Ela não conseguia se aproximar de Carlão e isso a deixava ainda mais agoniada.

Toda a multidão se sensibiliza com a emoção de Sílvia e tentavam acalmá-la dizendo que Carlão estava bem. Um enfermeiro que atendia o acidentado virou para Sílvia e disse que Carlão estava sendo levado ao hospital para fazer alguns exames de rotina mas logo poderia voltar para casa. Foi quando o acidentado diz com uma voz fraca e cheia de dor:


- Quem disse que eu me chamo Carlão. Meu nome é João. Que merda...


O silêncio toma conta da multidão. Sílvia para de chorar no mesmo instante. Todos ficam olhando paralisados para Sílvia. Mesmo os dois enfermeiros param o atendimento por alguns instantes para ver a reação de Sílvia. Mas ela não sabe como agir. Somente nesse momento Sílvia consegue ver o rosto do rapaz acidentado. A expressão de desespero é tomada pelo sentimento de vergonha. Ela começa a se afastar e vê a farmácia fechada.

Do outro lado da rua Carlão enxerga Sílvia e corre para ver o que estava acontecendo.


- O que houve Sílvia? Tudo bem contigo? Por que esta chorando? Conhece o acidentado? A farmácia estava fechada e tive que ir até a outra...


Sílvia e Carlão voltaram até o Apartamento. Sílvia precisava de um momento para se acalmar abraçada em Carlão. Eles entraram no elevador. Se beijaram e começaram o que tinham parado.
 

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Christon Delàs
christon.delas@yahoo.com

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Gary Snyder
(How Poetry Comes to Me)

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